sábado, 23 de junho de 2007

O Quintal de cada um

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Sobrinhos são coisas grandiosas. Sobrinhos são o tipo de criança perfeita: não são próximos demais a ponto de precisar acordar às 3 da manhã para leva-lo ao banheiro nem longe demais para que as outras pessoas nos estranhem ao pararmos somente para observa-los enquanto dormem.


Mas o meu sobrinho é (ou foi por cinco segundos) uma pedra no sapato.
Ele me desloca com argumentações que pareciam desencontradas, achando elos entre os dinossauros e o super-homem, entre o homem-aranha e o castelo rá-tim-bum, entre o Pequeno Príncipe e o sapo da Cinderela.

Essa semana, num dos meus – cada vez mais escassos – momentos de folga, estive conversando com ele quando ele me disse: – Mas pra que serve isso [trabalho] se eu não tenho com que me preocupar? Eu ia disser pra ele que o trabalho era importante, que era por causa dele que a gente podia comprar as coisas, que era por ele que o mundo crescia e coisa e tal... Mas pensei melhor, e achei que seria muito cruel falar para uma criança de menos de cinco anos que papai-noel não existe, que o coelho da páscoa não bota ovos, que o Natal foi inventado pela Coca-cola, que a Xuxa já posou nua e fez filme-pornô, que nós não fomos criados em 7 dias.

O bom da vida é o ver descobrir tudo isso por si mesmo. Não haverá nada que eu possa fazer que vá impedi-lo de ver o mundo apenas da forma como ele deseja ver, seria cruel demais da minha parte faze-lo enxergar o meu modo de ver as coisas ‘apenas com cinco anos’.

Seria triste acabar com toda e qualquer forma de inocência ainda tão cedo e de uma forma tão brusca. Ele precisa saber, entretanto, que algumas coisas vão e não voltam jamais; como a palavra dita, como a flecha lançada, como a inocência perdida, como balões de gás soltos no céu, como certezas refutadas. Ele precisa saber que em alguns casos ele vai ter que se contentar com pouco ou então com nada. Ele vai ter que se contentar, em alguns casos, em dar alguma coisa que ele gosta muito sem saber que mais tarde ele vai receber algo em troca por isso. Ou não. Ele vai ter que perceber que ele vai receber mais ‘nãos’ dos que ‘sins’ durante a vida dele.

Ele precisa saber de tudo isso: mas não poderia ser em uma tarde só. Ele precisa ir vendo a vida aos poucos, vivendo um dia de cada vez. Afinal de contas cinco anos são só cinco anos e eu não me lembro de tê-lo visto vendo ou sabendo da importância da eleição de um papa, de um presidente, de um eclipse, ou de um arco-íris.
Cinco anos é uma idade grandiosa, pelo que dá pra perceber, pois eu não me lembro dos meus cinco anos. Eu o vejo andando descalço, subindo e descendo morros, comendo acerolas verdes, seguindo caminhos de formigas, gritando por muito pouca coisa, e ficando feliz por coisas menores ainda. O mundo dele tem o tamanho do meu quintal.

E o meu quintal tem o tamanho do mundo.

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