Existem verdades que são difíceis de administrar. Assistindo a certo programa que já há muito tempo não me oferece nada de útil, reparo numa frase e um exemplo sobre qual se me descortina uma verdade doída da qual eu já tinha certo conhecimento: Gostamos de sofrer! E existe um bom exemplo que vai ilustrar bem isso.

Quando vamos comprar uma peça de roupa sempre preferimos a loja que vai nos dar mais opções de compra quando na verdade deveríamos escolher a que nos desse menos porque, tendo menos escolhas possíveis, com certeza teremos muito menos chance de ficar frustrados quando a certeza ou não de ter comprado a peça certa. Ao escolher a loja com mais opções abre-se um leque tão grande de possibilidades que o nosso senso crítico se anuvia e ficamos muito mais propensos a infelicidade e a esse sentimento de frustração. E podemos aplicar isso pra qualquer departamento da nossa vida. Veja:
Se não soubéssemos que podemos escolher entre ser budista, católico, maometano, xiita, espírita, e mais uma infinidade de outras religiões poderíamos simplesmente aceitar a religião imposta pelos pais e seguir em frente acreditando que deus é uma luz e esquecendo a possibilidade de que talvez estejamos rezando pro deus errado. Ou então que os que rezam pra uma flor, pra uma vaca, pra uma pedra... estejam esses errados.
Quando começamos a ver que existem outras possibilidades na vida ao invés de as coisas esclarecerem-se elas se tornam ainda mais complicadas, pois a certeza de que existem outros caminhos que poderiam ter sido percorridos nos deixa com a sensação que o outro caminho poderia ser melhor. Andre Gide nos fala, e eu repito essa frase milhões de vezes, que ‘o diabo dessa vida é que dentre cem caminhos temos que escolher apenas um e ficar com a nostalgia dos outros noventa e nove’.
Mas o pior de tudo é o caminho do meio. Existe esse caminho que é tão perigoso, tão estreito, tão cheio de armadilhas, tão cheio de desfiladeiros de misericórdia que é incrível como ainda existem pessoas que ainda tentam trilhá-lo. O caminho do meio é o fio tênue que separa o que é certo do que é errado; o que é santo do que é profano; o que é meu do que é seu. Essa linha tênue, entretanto, tem a estranha mania de se ajustar sempre pra um dos lados e estar sempre mudando de posição nas nossas vidas. Ultrapassar essa linha nos estigmatiza com um ar sombrio que será perceptível a todos aqueles que também já a houverem ultrapassado.
O que entretanto é preciso perceber é que sempre existem esquinas onde podemos mudar de caminho e existem também retornos e vias de mãos dupla onde encontramos pessoas que estava indo e agora estão voltando (ou éramos nós quem estávamos indo e agora estamos voltando?) e essas diversas travessias e avenidas e bulevares no deixam com esperança de que há alguns quilômetros sempre existirá um caminho que nos levará de volta ao ponto exato em que decidimos comprar a camiseta preta à vermelha ou em em que decidimos rezar pra Luz ou pra a Pedra.


